No princípio — embora “princípio” talvez seja uma simplificação —, havia apenas poeira estelar, poeira cósmica rodopiando num vazio incognoscível. Dela surgiu o universo: um parque infinito e caótico de luz e gravidade, expansão e implosão. Não havia lógica nem razão, apenas o potencial em movimento de tudo que viria a existir. E, em algum momento, talvez porque o universo se entediara ou adorasse experiências, surgiram mãos.
Não eram mãos comuns. Não tinham impressões digitais, nervos ou ossos, nem estavam ligadas a um corpo específico. Simplesmente… eram. Flutuantes, luminosas, cósmicas, feitas de poeira estelar e galáxias, de algum modo quentes apesar da textura sobrenatural. Olhando de perto, alguém poderia jurar que via nebulosas girando sob a pele, como óleo na água, cintilando num espectro impossível de cores. Mas, até onde se sabia, não pertenciam a ninguém nem a nada. Eram mãos sem dono — ou talvez elas fossem o dono, e o próprio universo, apenas uma ideia delicadamente acolhida em suas palmas.
Por eras, apenas flutuaram, maravilhadas com a própria existência do jeito que só mãos podem ficar. Se pudessem rir, teriam rido; se pudessem pensar, refletiriam profundamente sobre seu propósito. Mas, afinal, eram apenas mãos. O propósito era irrelevante: simplesmente existiam, embalando fragmentos de estrelas e lampejos de luz, sentindo o calor de toda a criação fluir através delas. E isso bastava.
Ou bastava até o dia em que sentiram algo novo.
Era uma agitação tênue, uma vibração quase imperceptível vinda das profundezas — um sinal, talvez, ou um chamado. Algo no universo havia… mudado. Ao se juntarem instintivamente em concha, perceberam o contorno suave de uma pequena flor luminosa tomando forma entre as palmas, etérea e delicada, brilhando com luz de estrelas. Suas pétalas cintilavam em tons de rosa e violeta, e o centro era uma suave explosão dourada de sol. As mãos sentiram algo, se é que mãos podem sentir. Não era exatamente um pensamento: parecia mais um impulso, uma urgência que as puxava. Acolhiam o universo inteiro havia tanto tempo quanto conseguiam perceber, mas aquilo parecia… diferente. Pessoal.
A flor se abria, camada após camada intrincada, cada pétala uma explosão de cor e luz, como se guardasse em sua pequena forma todas as histórias de todas as estrelas. E, pela primeira vez, as mãos sentiram um aperto, a vontade de proteger algo tão frágil e, ainda assim, de beleza tão ilimitada. Aproximaram-na, acolhendo-a com mais cuidado, sentindo um calor silencioso irradiar por suas palmas intangíveis. Num universo definido pelo caos e pela incerteza, ali estava algo precioso, algo que precisava de cuidado.
Enquanto se maravilhavam, a flor começou a sussurrar. Não palavras — flores não têm boca —, mas um conhecimento profundo e ressonante que, de algum modo, se derramava diretamente na poeira estelar daquelas mãos celestes. O sussurro era infinitamente antigo e surpreendentemente novo. Falava de vida e morte, nascimento e decomposição, riso e coração partido. Falava de momentos: da sensação da luz tocando a pele pela primeira vez depois do inverno, ou da alegria peculiar de compartilhar uma piada que não precisa ter graça, contanto que se esteja rindo junto. Sussurrava também paradoxos, o absurdo e a magnificência das vidas humanas, os instantes em que as pessoas riem entre lágrimas ou se apaixonam contra toda a razão.
As mãos não podiam rir, mas, se pudessem, talvez rissem baixinho do absurdo. Uma flor contendo todos os segredos do universo, sussurrando sobre primeiros encontros constrangedores e areia entre os dedos dos pés, como se esses pequenos momentos humanos tivessem o mesmo peso que o nascimento de estrelas e a queda de impérios.
Mas, enquanto ouviam, perceberam algo ainda mais estranho: a flor não se importava em ser eterna. Sua sabedoria estava em entender que tudo — cada risada, cada lágrima, cada estrela, cada silêncio — um dia desapareceria. E ela aceitava isso. Na verdade, celebrava. A flor abraçava o temporário, o agridoce, os breves clarões de beleza que davam sentido à existência.
Naquele instante, as mãos compreenderam, à sua maneira silenciosa e sem palavras. O propósito de acolher o universo não era protegê-lo da mudança, mas nutrir suas transformações, deixar as coisas florescerem e murcharem, testemunhar tanto as alegrias quanto os absurdos da existência. Talvez estivessem ali por isso: para segurar o universo não como uma posse, mas como um amigo que se sabe estar apenas de visita por algum tempo.
E assim, pela primeira vez em tantas eras de existência, as mãos afrouxaram o aperto. Deixaram a flor repousar livremente nas palmas, contentes em vê-la viver e crescer e, por fim, inevitavelmente, desaparecer. Era estranho, até reconfortante, saber que tudo que passava a existir um dia retornaria à mesma poeira cósmica de onde surgira.
Quando as pétalas começaram a se desprender como pequenas estrelas, as mãos se sentiram estranhamente em paz. Sabiam que o universo continuaria sua dança caótica, gerando novas maravilhas, criando e destruindo em ciclos intermináveis. Observariam como testemunhas, tendo como único propósito acolher, cuidar e, de vez em quando, soltar.
E talvez, só talvez, se tivessem o dom do riso, rissem baixinho da ironia. Afinal, eram mãos — a mais simples das formas — segurando a mais complexa das coisas. Mas a vida é assim, não é? Simples, absurda e infinitamente bela.
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