A noite estava carregada do perfume do jasmim em flor, aquele tipo de fragrância que se agarra à alma e a convida a vagar. Selene caminhava pela floresta, e sua lanterna lançava lampejos dourados nas árvores antigas ao redor. Ela ouvira os rumores — sussurros que escapavam de lábios embriagados em tavernas sombrias. Em algum lugar nas profundezas daquele bosque esquecido vivia uma criatura de beleza impossível, um ser que habitava a fronteira entre o mortal e o divino. Chamavam-na de Borboleta Celestial.
Selene não acreditava em contos de fadas. Não no início. Sua vida fora moldada pelo pragmatismo, pelas arestas cortantes da sobrevivência e pela fria certeza da perda. Mas algo mudara na noite em que sonhara pela primeira vez com a borboleta. No sonho, ela lhe aparecera com asas semelhantes a pétalas pintadas de luz estelar, e seus luminosos olhos verdes a haviam paralisado. Ao acordar, Selene não conseguira afastar a sensação de que a criatura não era apenas fruto de sua imaginação. Era um chamado.
A floresta escurecia à medida que ela avançava, e a chama da lanterna mal bastava para manter as sombras afastadas. Não havia trilha a seguir, apenas o instinto e um leve zumbido no ar que parecia guiá-la. O som não era natural — era delicado demais, deliberado demais. Vibrava logo abaixo de sua consciência, atraindo-a para dentro do bosque como uma mão invisível. Horas se passaram. Ou talvez minutos. O tempo parecia estranho ali, tênue e maleável. Quando Selene enfim chegou cambaleando à clareira, ofegou, apertando a lanterna como se ela pudesse protegê-la da visão à sua frente.
A guardiã se revela
A borboleta não era uma criatura sujeita às leis da natureza. Era uma combinação de tudo que havia de belo e terrível no mundo, suas imensas asas cintilando em cores que pareciam mudar a cada respiração de Selene. Joias — não, não joias, mas algo mais vivo — adornavam suas asas, refratando a luz em cascatas de arco-íris que dançavam pela clareira. O corpo da criatura era delicado, quase esquelético, mas seus olhos ardiam com um brilho que pregava Selene ao chão. “Você veio”, disse a borboleta, embora sua boca não se movesse. A voz ecoou dentro da mente de Selene, profunda e ressonante, carregada de séculos de conhecimento e tristeza. “Por quê?”
Ela abriu a boca para responder, mas nenhum som saiu. Seu motivo para procurar a criatura de repente pareceu pequeno, insignificante. O que poderia dizer? Que buscava sentido? Alguma garantia de que sua vida não se reduzira a uma sequência de noites vazias e dias ocos? Que ansiava por alguma coisa, qualquer coisa, que a fizesse acreditar novamente no maravilhamento? A borboleta inclinou a cabeça, suavizando o olhar. “Você carrega o peso de uma pergunta que ainda não ousou fazer”, disse. “Mas cuidado. As respostas raramente são tão reconfortantes quanto as perguntas que as originam.”
Um vislumbre da eternidade
Antes que Selene pudesse responder, a borboleta abriu as asas, e o mundo se transformou. A clareira ao redor se dissolveu, substituída por um caleidoscópio de cores e formas mutáveis. Era como se ela caísse através do próprio tecido da realidade, cada camada se desprendendo para revelar outra por baixo. Viu relances de coisas que não conseguia compreender: oceanos imensos cintilando de estrelas, cidades construídas de luz e sombra, e rostos — tantos rostos —, cada um marcado pela alegria, pela tristeza ou pelo anseio. Em meio a tudo aquilo, viu a si mesma. Não como era, mas como poderia ser. Mais forte. Mais corajosa. Inteira. Mas a visão foi fugaz e, quando desapareceu, deixou em seu peito uma dor que ela não sabia explicar.
A voz da borboleta voltou, mais suave agora, quase terna. “Está vendo? A verdade do mundo não é uma única história, mas muitas, entrelaçadas de maneiras que desafiam a compreensão. Entendê-la por completo é arriscar desfazer a si mesma. Ainda deseja saber?” Selene hesitou. A imensidão do que vira ameaçava esmagá-la, mas uma parte dela — pequena, desafiadora — ardia de curiosidade. “Sim”, sussurrou, com a voz trêmula, porém firme. “Quero saber.”
O preço de saber
A borboleta a observou por um longo momento antes de assentir. “Muito bem. Mas o conhecimento tem um preço, e você precisa estar disposta a pagá-lo.” “Qual é o preço?”, perguntou Selene, embora parte dela já soubesse a resposta. “Sua certeza”, respondeu a borboleta. “Depois de enxergar o mundo como ele realmente é, você nunca mais encontrará conforto na simplicidade. Cada decisão, cada escolha, carregará o peso de infinitas possibilidades. Está preparada para isso?” O coração de Selene martelava no peito. A vida que conhecera — por mais comum e previsível que fosse — de repente lhe pareceu uma prisão. Se o preço da liberdade era a incerteza, ela o pagaria de bom grado. “Estou”, disse.
As asas da borboleta começaram a cintilar, e Selene sentiu um calor se espalhar por seu corpo, começando no peito e se irradiando para fora. Não doía, mas era intenso, uma sensação que a deixou sem fôlego e trêmula. Quando tudo terminou, a borboleta havia desaparecido, e Selene estava sozinha na clareira.
Depois do encontro
A floresta estava silenciosa enquanto ela fazia o caminho de volta, mas o mundo ao redor parecia diferente — mais luminoso, mais vivo. As cores pareciam mais ricas, os sons mais vibrantes. E, embora não conseguisse explicar, sentia-se mais leve, como se um fardo invisível tivesse sido retirado de seus ombros. Nos dias seguintes, Selene se viu atraída pelos menores detalhes: a maneira como a luz do sol atravessava as árvores, as delicadas nervuras de uma pétala, o riso de desconhecidos que passavam. Ela não tinha todas as respostas — talvez nunca tivesse —, mas possuía algo melhor. Possuía a capacidade de se maravilhar.
E, nos momentos de quietude, quando o mundo silenciava, podia sentir o olhar da borboleta sobre si, lembrando-lhe que os limites da realidade eram muito mais frágeis do que jamais imaginara.
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