Um rugido por novos começos
Véspera de Ano-Novo — a única noite do ano em que todo mundo concorda que a vida é um caos, mas o champanhe a torna tolerável. Eu estava num canto de uma festa onde o glitter se agarrava a cada superfície, como uma esperança que se recusa a largar. Minha “lista de resoluções” estava enfiada no bolso, mas, sinceramente, era mais uma caixa de sugestões para o universo: “Perder peso, ganhar dinheiro e parar de mandar mensagens para meu ex quando bebo.” Metas ambiciosas, considerando que eu já tinha tomado três taças de prosecco e estava de olho na quarta.
O relógio marcava 23h18. Ainda havia tempo para refletir, como as pessoas sempre dizem que devemos fazer. Mas quem reflete durante uma festa? O DJ soltava um remix de músicas das quais ninguém admitia gostar, e o barman parecia a segundos de arremessar uma coqueteleira em alguém. Meu tipo de caos.
“Qual é sua grande resolução este ano?”, perguntou uma voz ao meu lado. Virei e vi um velho amigo — ou talvez só um conhecido de quem eu gostava o suficiente para lembrar vagamente.
“A mesma do ano passado”, respondi, dando de ombros. “Parar de fazer resoluções que não vou cumprir.”
Ele riu como se eu estivesse brincando, mas não estava. Na minha opinião, resoluções são apenas uma lista anual de tarefas para pessoas que inevitavelmente vão quebrar as promessas feitas a si mesmas até fevereiro. É tradição.
A meia-noite se aproxima
Às 23h45, a festa chegara à inevitável fase do “bêbado filosófico”. Grupos se reuniam nos cantos, discutindo se o tempo era real ou se abacaxi na pizza podia destruir amizades. Perto da mesa de petiscos, alguém derramara uma bebida, e outra pessoa tentava “limpar” despejando mais champanhe por cima. Ah, o ciclo da vida.
Quanto a mim, fui parar numa varanda, olhando as luzes da cidade lá embaixo. O ar estava frio, cortante contra minhas bochechas, e eu adorava. Ali fora, longe do barulho, quase conseguia sentir o peso do momento — a pressão silenciosa para me despedir de um ano e receber o seguinte como se não fossem apenas linhas arbitrárias traçadas no calendário. Afinal, o tempo é tão real quanto meu compromisso de “cortar carboidratos”.
“Pensamentos pesados?”, disse uma voz atrás de mim. Era meu amigo de novo — ou o conhecido, tanto faz. Ele me entregou um copo de algo suspeitosamente transparente. Provavelmente vodca.
“Só pensando em como este ano está terminando exatamente como começou”, falei, tomando um gole. “Com uma bebida na mão e nenhuma ideia do que estou fazendo.”
“Ei, consistência é subestimada”, respondeu, batendo o copo no meu. “Mas, falando sério, não me diga que você é dessas pessoas que odeiam o Ano-Novo. É tipo a única noite em que temos permissão para ser ridículos e esperançosos ao mesmo tempo.”
Ergui uma sobrancelha. “Esperançosos? Aí você está forçando. Estamos todos só fingindo não perceber que a vida é basicamente uma caçamba de lixo em chamas sobre rodas.”
“Sim, mas é a nossa caçamba de lixo em chamas”, disse ele, sorrindo. “E quem não gosta de uma boa fogueira?”
A contagem regressiva
Às 23h58, o salão era uma cacofonia de gritos, risadas e ficadas de última hora. O DJ começou a contagem cedo demais duas vezes, recebendo vaias da multidão. Alguém me entregou uma corneta de festa, que perdi imediatamente, e uma taça de champanhe, que definitivamente não perdi.
Os últimos momentos do ano pareciam estar à beira de um penhasco — empolgantes e aterrorizantes, com uma pitada de vertigem. Quando a contagem começou, senti aquela mistura estranha de emoções que sempre me atinge nessa época: alívio, arrependimento e um pouquinho daquela esperança idiota e ridícula de que meu conhecido falara.
“Dez! Nove! Oito!”
As pessoas gritavam, pulavam e derramavam bebidas sem cerimônia. Os casais se aproximavam para o beijo da meia-noite, enquanto os solteiros fingiam não se importar. Alguém no fundo já estava chorando, mas ninguém sabia se era de alegria ou de pavor existencial.
“Três! Dois! Um!”
O salão explodiu em caos. Taças tilintaram, desconhecidos se abraçaram, e o DJ finalmente acertou a hora. Fogos estouraram lá fora, iluminando o céu em clarões dourados, vermelhos e azuis. Por um momento, tudo parecia possível.
Um rugido para o futuro
E então, no mais autêntico estilo de Ano-Novo, a realidade voltou a se impor. Alguém tropeçou nos cabos das caixas de som e cortou a música. O sujeito que antes chorava agora soluçava sem parar. Vi uma pessoa bêbada tentar escalar o parapeito da varanda, só para ser puxada de volta pelos amigos, que riam tanto que mal conseguiam ficar em pé.
Fiquei no meu canto, bebendo champanhe e me sentindo... estranhamente bem. Sim, o ano tinha sido uma bagunça. Sim, eu não realizara nem metade do que planejara. Mas, naquele momento, vendo a loucura se desenrolar ao redor, percebi uma coisa: ninguém sabe de verdade o que está fazendo. Estamos todos tropeçando pelo caminho, esperando o melhor e nos preparando para o pior. E, de algum modo, isso é reconfortante.
O conhecido que virara amigo se juntou a mim de novo, segurando dois copos do que quer que o barman estivesse distribuindo de graça. “Feliz Ano-Novo”, disse, erguendo o copo. “Um brinde ao que vier.”
Sorri, batendo minha taça na dele. “Um brinde a sobreviver à caçamba de lixo em chamas.”
E assim começou o Ano-Novo — bagunçado, caótico e cheio de potencial. Exatamente como eu gosto.
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