Nas profundezas da Floresta Encantada, onde os cogumelos eram grandes como rodas de carroça e igualmente resistentes, uma elfa chamada Lila se meteu numa situação peculiar. Com apenas duzentos anos — uma mera adolescente pelos padrões élficos —, Lila recebera a tarefa de colher ervas para o boticário da aldeia. Claro que se distraíra imediatamente ao avistar um enorme cogumelo luminoso e decidira que seria o lugar perfeito para um cochilo. Quem poderia culpá-la? A luz do sol atravessava as copas em feixes dourados, e a floresta cheirava a musgo fresco e aventura. Naturalmente, sua cesta de ervas continuava vazia.
Enquanto subia pelo cogumelo como um esquilo bêbado — afinal, não havia escada —, resmungava: “Por que ninguém constrói degraus nesses fungos gigantes? Se conseguimos encantar panelas para se mexerem sozinhas, podemos instalar um corrimão ou dois!” Bufando e ofegando, finalmente chegou ao topo e se esparramou sobre o chapéu do cogumelo, de braços abertos. Fechou os olhos, saboreando o murmúrio de vida da floresta. E então ouviu.
Uma voz rouca e áspera disse: “Com licença, este cogumelo é meu.”
Lila se sentou num pulo, com o coração disparado. Diante dela estava um pequeno dragão. Bom, “pequeno” era relativo — tinha o tamanho de um cachorro grande, mas com escamas azul-esverdeadas cintilantes, asas que pareciam roubadas de um vitral e uma expressão que só podia ser descrita como pouco impressionada.
“Seu cogumelo?”, perguntou Lila, arqueando uma sobrancelha. “Desde quando dragões se importam com cogumelos?”
“Desde sempre”, disse o dragão, estufando o peito. “Este cogumelo é meu. Estou guardando ele há semanas. Sabe quantos esquilos tentam fazer xixi nele por dia? É um trabalho em tempo integral!”
Lila tentou abafar uma risada, mas fracassou miseravelmente. “Um dragão. Guardando um cogumelo. O que vem depois? Um goblin tricotando cachecóis?”
“Ria à vontade, elfa”, retrucou o dragão, estreitando os olhos de safira. “Este não é um cogumelo qualquer. É um Cogumelo da Luminescência. Extremamente raro. Extremamente mágico. E não aprecia sua bunda de elfa suada em cima dele.”
“Ah, me perdoe, Vossa Majestade Cogumelar”, disse Lila, levantando-se e fazendo uma reverência de deboche. “Não fazia ideia de que estava sentada no trono da grandeza fúngica. Por favor, vá em frente e… o que você faz com ele, afinal? Come? Veste? Pede em casamento?”
O dragão suspirou, apertando com a garra a ponte do focinho, como se tentasse evitar uma dor de cabeça iminente. “Está claro que você é imatura demais para compreender as sutilezas da micologia.”
“Claríssimo”, respondeu Lila, com um sorriso provocador. “Então, o que acontece agora? Duelamos pelo cogumelo? Já aviso: participei de pelo menos duas brigas de taverna, e só perdi uma porque alguém jogou um banco na minha cara.”
O dragão inclinou a cabeça, sinceramente intrigado. “Você é… bem esquisita para uma elfa. A maioria dos seus já teria pedido desculpas a esta altura. Ou tentado me vender chá de ervas.”
“Não sou a maioria dos elfos”, disse Lila, sorrindo. “E você não é a maioria dos dragões. Quase todos já teriam me comido, em vez de me dar uma palestra sobre conservação de cogumelos.”
Os dois se encararam por um momento, a tensão pairando no ar como um pêssego maduro demais. Então o dragão bufou. Não um bufo de fogo — mais de riso. “Você é engraçada”, admitiu a contragosto. “Irritante, mas engraçada.”
“Obrigada”, disse Lila. “Então, qual é seu nome, ó poderoso protetor dos fungos?”
“Torvik”, respondeu o dragão, endireitando-se. “E o seu, ó invasora élfica suada?”
“Lila. Prazer em conhecer você, Torvik. Então, o que um dragão faz para se divertir por aqui? Além de gritar com esquilos?”
Torvik sorriu, exibindo dentes que provavelmente conseguiriam triturar aço. “Bom, tem uma coisa. Você é boa em escalar cogumelos, certo?”
“A esta altura sou praticamente especialista”, disse Lila, fazendo um gesto grandioso para o cogumelo onde estavam.
“Excelente. Porque o próximo cogumelo foi tomado por uma família particularmente desagradável de guaxinins, e eles andam roubando minha reserva de comida. Acha que consegue me ajudar a espantá-los?”
O rosto de Lila se iluminou. “Ah, achei que nunca fosse pedir. Mas já aviso: sou péssima em intimidar. Uma vez tentei enxotar um gambá do jardim e acabei dando meu almoço a ele.”
“Perfeito”, disse Torvik, abrindo as asas dramaticamente. “Vai ser hilário.”
E assim a elfa e o dragão partiram para sua primeira aventura juntos. Houve risadas, caos e, sim, uma revolta de guaxinins que entraria para a história da floresta como “A Grande Escaramuça dos Cogumelos”. Mas essa é uma história para outra hora.
Por enquanto, basta dizer que Lila e Torvik encontraram um no outro algo inesperado: um amigo que apreciava o absurdo da vida tanto quanto eles. E talvez, só talvez, o Cogumelo da Luminescência fosse mesmo mágico. Porque, se um dragão sarcástico e uma elfa atrevida conseguiam dividir um cogumelo sem matar um ao outro, tudo era possível.
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