Nos confins do norte, onde o ar cintilava com um frio tão antigo que sussurrava canções esquecidas, reinava a Rainha da Neve. Ela não era uma monarca comum. Seu domínio não se estendia sobre terras ou cidades, mas sobre o delicado equilíbrio do próprio inverno. Cada floco de neve que caía, cada sopro carregado de geada exalado na quietude levava sua assinatura. O mundo a conhecia como Solvara, a guardiã dos segredos congelados.
Seu palácio, um labirinto de beleza cristalina, erguia-se à margem de um rio congelado que jamais degelava. Torres de gelo recortado espiralavam rumo ao céu, refratando a luz em cores espectrais durante o breve crepúsculo dos dias polares. Dentro daquelas paredes cintilantes, o tempo parecia suspenso. Os raros visitantes costumavam contar que sentiam o peso da eternidade pressionando seus peitos, de maneira suave, mas firme. A própria Solvara atravessara séculos, sua vida longa e onírica como uma história sem fim.
Solvara não estava sozinha em sua vigília. Sempre pousada em sua mão enluvada havia uma suindara celestial chamada Veylith. A coruja não era uma criatura comum. Suas penas cintilavam de leve, como se salpicadas de poeira estelar, e seus olhos refletiam não o mundo ao redor, mas constelações. Veylith era seu companheiro, sua sentinela e seu espelho — uma criatura nascida da mesma magia misteriosa que prendia Solvara ao seu reino gelado.
O fardo da rainha
Embora seu domínio fosse de uma beleza deslumbrante, era um reino solitário. O papel de Solvara não nascera de uma escolha, mas da necessidade. Muito tempo antes, ela fora uma mulher mortal, afetuosa e risonha, que vivia num pequeno povoado à beira de uma floresta comum. Num inverno fatídico, uma peste assolou seu lar, roubando o fôlego de seu povo e ameaçando mergulhar a região no desespero. Desesperada para salvá-los, ela buscou a orientação de um espírito ancestral que, diziam, habitava os campos de gelo do norte.
O espírito, um ser cintilante de geada e sombras, lhe ofereceu um acordo. Solvara receberia o poder de deter a peste e cobrir a terra com o frio purificador do inverno, mas, em troca, renunciaria à sua vida mortal. Tornar-se-ia a Rainha da Neve, uma guardiã atemporal do inverno, e nunca mais sentiria o calor do sol nem o toque da mão de outra pessoa. Sem hesitar, aceitou: seu amor por seu povo pesava mais que o preço de sua humanidade.
E assim ela os salvou, mas ao custo da própria liberdade. Ao longo dos séculos, a lembrança daquela época se apagara como um floco de neve derretendo contra uma palma quente. Já não conseguia recordar os rostos daqueles que salvara, apenas a dor de sua ausência.
Um visitante do sul
Numa noite interminável, durante a estação escura em que o sol não nasce, uma figura apareceu na fronteira de seu reino. Solvara, sempre vigilante, avistou o visitante antes que chegasse aos portões. Era um homem envolto em peles pesadas, a respiração visível no ar gelado. Ao contrário dos poucos que se haviam aventurado em seu domínio ao longo dos anos, aquele homem não trazia ganância nem violência no coração. Em vez disso, ela sentiu algo incomum: uma tristeza pesada e inflexível.
Curiosa, Solvara desceu de seu trono de gelo e saiu para a noite, com Veylith planando silenciosamente acima dela. Quando se aproximou, o homem caiu de joelhos, com a cabeça curvada. “Vossa Majestade”, disse, com a voz trêmula, “vim em busca de um milagre.”
Ela o observou em silêncio, com olhos prateados indecifráveis. “Milagres”, disse, com uma voz tão suave e fria quanto a neve caindo, “sempre cobram um preço.”
O homem ergueu o rosto marcado pela dor. “Não me resta nada para oferecer além de mim mesmo”, disse. “Minha esposa… ela foi tirada de mim. Uma doença repentina, cruel e rápida. Não consigo continuar sem ela. Se não pode trazê-la de volta, então peço — por favor — que tire de mim as lembranças dela. Deixe-me esquecer a dor.”
Solvara sentiu uma pontada profunda, uma rachadura na armadura glacial que construíra ao redor do coração ao longo dos séculos. Ela compreendia a perda; era o fio que a prendia ao seu reino. Mas não esquecera o preço de interferir na vida e na morte. “Não posso trazer os mortos de volta”, disse, com delicadeza. “Nem posso roubar as lembranças do amor, por mais dolorosas que sejam. Mas posso lhe dar outra coisa.”
O presente da perspectiva
Ela estendeu a mão, e Veylith voou até ela, pousando delicadamente em seu pulso. “Este é Veylith, minha sentinela. Pelos olhos dele, você verá a vastidão do mundo: as constelações que iluminam os céus, as tempestades que moldam a terra, os momentos silenciosos de beleza que existem mesmo na tristeza. Isso não apagará sua dor, mas talvez o ajude a carregá-la.”
O homem hesitou e então assentiu. Solvara manteve a mão livre sobre o coração dele, e uma luz tênue brilhou entre os dois. Quando ela se afastou, o homem arfou. Seus olhos agora refletiam as mesmas constelações luminosas dos olhos de Veylith e, pela primeira vez em anos, sentiu o peso esmagador do luto diminuir, ainda que muito pouco.
“Vá agora”, disse Solvara, com a voz tingida de algo parecido com esperança. “O mundo é vasto, e você não está sozinho.”
Um vislumbre de humanidade
Quando o homem desapareceu ao longe, Solvara se voltou para o palácio, com passos mais lentos que de costume. Veylith voou à frente, suas asas silenciosas cortando o ar congelado, mas, pela primeira vez em séculos, a Rainha da Neve sentiu despertar algo que havia muito esquecera: anseio. A tristeza daquele homem a fizera lembrar de sua própria humanidade, enterrada sob a neve e o gelo de sua existência imortal.
Ao subir os degraus gelados de seu trono, ela parou e contemplou as estrelas. “Talvez”, murmurou, “até o inverno precise acabar algum dia.”
Veylith inclinou a cabeça, observando-a atentamente com seus olhos repletos de constelações. E, por um brevíssimo instante, a Rainha da Neve se permitiu sonhar com a primavera.
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