Capítulo um: Hollow’s End
A história começou como qualquer lenda urbana: sussurrada em bares mal iluminados, contada ao redor de fogueiras e descartada como delírio de bêbado. Mas, em Hollow’s End, todos sabiam que algo espreitava nas sombras, mesmo que ninguém quisesse admitir. Os relatos não eram apenas histórias — eram avisos. Você não ficava na rua depois de escurecer e, de jeito nenhum, abria as janelas, por mais abafado que estivesse o ar da noite de verão.
Diziam que a Mariposa Vampira existia havia séculos. As lendas afirmavam que chegara num navio do Velho Mundo, agarrada às velas esfarrapadas, atraída pelo cheiro do sangue dos marinheiros. Alguns diziam que era fruto de uma maldição — um monarca que enfurecera os deuses e fora condenado a se alimentar para sempre da vida sem jamais viver. Mas, se você perguntasse aos caçadores locais, eles diriam apenas que era uma mariposa grande demais com gosto por sangue. A verdade, como sempre, estava em algum ponto entre as duas versões.
Hollow’s End nem sempre fora uma cidade afogada em rumores. Houve um tempo, muito antes de eu nascer, em que prosperava — pomares carregados de maçãs, crianças brincando nas ruas, vizinhos sorrindo e acenando. Mas isso foi antes dos desaparecimentos. Começaram devagar, uma criança aqui, um andarilho ali, mas, depois de um tempo, tornou-se impossível ignorar. Quando tive idade para entender, a cidade já era uma casca do que tinha sido. As pessoas se mudavam. Os pomares apodreciam. Ninguém sorria mais. E a única coisa que enchia as ruas à noite era o vento, carregando o cheiro de decomposição e medo.
Meus pais estavam entre os poucos que ficaram. Pode chamar de teimosia ou estupidez, mas não eram de fugir. Talvez achassem que as histórias eram só isso — histórias. Quer dizer, quem realmente acredita numa mariposa gigante que bebe sangue? Monstros não existiam. Ou era o que eu pensava. Até a noite em que ela veio atrás de mim.
Capítulo dois: o encontro
Nunca fui de acreditar em superstições. Ouvira os avisos a vida inteira, os conselhos sussurrados de nunca abrir as janelas depois do pôr do sol. Mas, naquela noite particularmente abafada de agosto, eu simplesmente não me importei. O ar do quarto era sufocante, e imaginei que a chance de ser levado por uma mariposa mítica fosse tão grande quanto ganhar na loteria. Então entreabri a janela.
A brisa que entrou foi um alívio, fresca e tranquilizadora. Por um tempo, fiquei deitado, deixando o ar passar sobre mim. Estava quase dormindo quando ouvi — um leve bater de asas, quase inaudível, como o som distante de asas de papel. A princípio, achei que não fosse nada. Talvez um pássaro ou um morcego. Mas o barulho aumentou. Então veio o cheiro — denso, acobreado, como sangue fresco suspenso no ar. Minha pele se arrepiou. Sentei-me, o coração disparado, vasculhando o quarto com os olhos. Foi quando a vi.
Não era apenas uma mariposa. Não, aquela coisa era monstruosa. As asas tinham quase o comprimento da minha cama e pingavam uma substância vermelho-escura que escorria pelas bordas e respingava no chão. Em alguns pontos eram translúcidas, revelando veias que pulsavam a cada batida. O corpo era grotesco, inchado e pulsante, com um brilho antinatural, como couro molhado esticado sobre um esqueleto grande demais para ele. E os olhos — aqueles olhos vermelhos como brasas — se fixaram em mim.
Congelei, sem saber se devia gritar ou correr, mas meu corpo se recusava a se mover. A mariposa pairou por um instante, as asas batendo num ritmo lento e hipnótico. Então avançou, com uma graça predatória em cada movimento. Eu podia ver suas presas agora, afiadas e reluzentes com a vida que roubara da última vítima. No pânico paralisante, murmurei: “Belas asas. Está fazendo uma campanha de doação de sangue ou coisa assim?” Porque humor negro era tudo o que me restava. A mariposa parou, como se me entendesse. Por um instante, poderia jurar que sorriu. Então atacou.
Capítulo três: a alimentação
As presas afundaram no meu ombro e, embora eu esperasse uma dor aguda, foi estranhamente delicado. A mordida era precisa, quase clínica, como se ela soubesse exatamente onde cravar as presas para causar o mínimo de dano e ainda assim me esvaziar. A sensação não era dor — era pior. Era como se minha própria essência estivesse sendo sugada, a vida se esvaindo uma gota de cada vez.
Eu sentia o calor deixar meu corpo, substituído por um frio antinatural que penetrava nos ossos. Minha visão embaçou quando as asas da mariposa me envolveram, encerrando-me num casulo de escuridão e decomposição. O cheiro de sangue e podridão encheu meus pulmões, dificultando a respiração. Meu coração disparou, depois desacelerou, as batidas ficando mais fracas a cada segundo. Justamente quando pensei que ela me drenaria por completo, a criatura parou. Abriu as asas e pairou acima de mim, os olhos ainda presos aos meus. Por um momento, achei que terminaria o serviço. Mas, em vez disso, fez algo muito pior.
Ela riu. Não um som que eu esperaria de um inseto — não, era quase humano, uma risadinha suave e rouca que me fez estremecer. Recuou flutuando, como se admirasse o próprio trabalho, e então, com uma última batida das asas encharcadas de sangue, voou para a noite, deixando-me ofegante e meio morto na cama.
Capítulo quatro: as consequências
Quando acordei na manhã seguinte, as marcas no ombro ainda estavam lá — duas perfurações perfeitas. Mas não eram elas que me assustavam. O que me assustava era a sensação de que algo havia sido arrancado de mim. Eu ainda estava vivo, claro, mas não estava inteiro. A mariposa deixara mais do que cicatrizes. Levara uma parte da minha alma, um pedaço de mim que eu nunca recuperaria.
Tentei explicar às pessoas, mas ninguém acreditou. Não a princípio. Não até aparecerem mais corpos, drenados, esvaziados como cascas ocas. A cidade entrou em pânico. O xerife organizou equipes de busca, e as pessoas começaram a pregar tábuas nas janelas, mas nada adiantava. A mariposa não era um animal selvagem que se pudesse caçar. Era mais esperta do que isso. E estava faminta.
Capítulo cinco: a piada é com você
Agora, sempre que alguém em Hollow’s End faz uma piada sobre a Mariposa Vampira, apenas sorrio e puxo a gola da camisa. “Ria à vontade”, digo, revelando as duas marcas, “mas a verdadeira piada será com você quando ela decidir que é o próximo.” Porque há algo que não contam nas lendas. A Mariposa Vampira não apenas mata você. Ela deixa um pedaço de si para trás, um pequeno presente de despedida. Consigo senti-lo crescer dentro de mim, todos os dias, pouco a pouco. A fome. A necessidade. É só questão de tempo até eu me transformar em outra coisa — algo que anseia pelo gosto de sangue tanto quanto ela.
Então, se algum dia vier a Hollow’s End, mantenha as janelas fechadas e talvez — só talvez — consiga sobreviver à noite. Mas, se ouvir um leve bater de asas e sentir um cheiro doce e acobreado no ar, bem... digamos que é melhor começar a escrever seu testamento. 

The Snail Who Looked Twice at Trouble
The Gnome Who Swore the Mushroom Was Listening
The Seedpod That Fired Before Anyone Was Ready