O convite
O convite chegou ao anoitecer, escrito em tinta verde cintilante sobre um pergaminho quebradiço. Tinha um leve cheiro de decomposição e rosas, uma combinação inquietante que fez Edwin recuar antes que a curiosidade o obrigasse a desdobrá-lo.
“Você foi escolhido.”
As palavras serpenteavam pela página como se pudessem sair dela e sussurrar diretamente em seu ouvido. Ele não era o tipo de pessoa escolhida para nada — nem promoções, nem sorteios, muito menos convites misteriosos e sinistros entregues por uma mão esquelética que desaparecera antes que pudesse bater a porta.
Edwin suspirou. Estava cansado. Estava com fome. E tinha quase certeza de que aceitar convites estranhos e enigmáticos era como as pessoas acabavam em covas rasas. Mas o bilhete pulsava entre seus dedos, como se o próprio papel respirasse, à espera. Ignorá-lo não era uma opção.
O endereço o levou a uma antiga mansão na periferia da cidade, um lugar que deveria ter desabado sob o peso da própria má reputação. Erguia-se sob um céu carregado de nuvens de tempestade, com as janelas brilhando num verde doentio. O portão de ferro se abriu sem som algum, o que de alguma forma era pior do que o rangido que deveria ter feito.
“Eu devia voltar para casa”, murmurou Edwin.
Seus pés tinham outros planos.
Lá dentro, a luz das velas tremeluzia contra paredes cobertas de retratos — cada um representando uma pessoa diferente com olhos vazados e caveiras pintadas. Eles o encaravam enquanto passava, as bocas curvadas em sorrisos cúmplices.
“Bem-vindo”, ronronou uma voz.
Edwin se virou e perdeu o fôlego. No alto de uma grande escadaria estava ela.
A Oráculo dos Ossos.
Ela desceu em passos lentos e deliberados, com o vestido coberto de esmeraldas que brilhavam como almas aprisionadas. Seu cabelo prateado ondulava, embora não houvesse vento. O próprio ar parecia vibrar ao redor, uma canção que os ossos de Edwin reconheceram antes da mente.
“Você respondeu ao chamado”, disse ela, com voz de seda envolvendo aço.
Edwin engoliu em seco. “Eu… hã… sim?”
Seu sorriso esquelético se alargou. “Então deve saber por que está aqui.”
“Na verdade, não sei.”
A Oráculo soltou uma risada baixa e melodiosa. Parecia vir de dentro do próprio crânio dele.
“Coitadinho.” Estendeu uma mão enluvada, as unhas cintilando como obsidiana polida. “Então permita que eu explique.”
Edwin hesitou. Os retratos pareceram se inclinar para mais perto.
“Você tem algo de que preciso”, sussurrou ela.
Seus olhos de esmeralda brilharam.
A pele de Edwin se arrepiou.
E então, em algum lugar nas profundezas da casa, algo bateu— três pancadas lentas e deliberadas.
O som sacudiu seus ossos.
E a porta atrás dele se trancou.
O acordo
O estômago de Edwin despencou quando o último eco das batidas se perdeu no silêncio. A Oráculo dos Ossos inclinou a cabeça, observando-o como uma gata que avalia um rato particularmente lento.
“Sabe o que esse som significa?”, perguntou.
Edwin engoliu em seco. “Que eu devia ter ficado em casa?”
A risada dela foi suave e cruel. “Significa que seu tempo acabou.”
Ele recuou um passo, mas as sombras a seus pés se moveram, enrolando-se nos tornozelos como enguias famintas. Os retratos haviam mudado novamente — agora todos tinham seu rosto, os olhos vazios fitando-o com uma expressão que ele não conseguia nomear.
Piedade?
Arrependimento?
“Eu… eu não me lembro de ter marcado horário”, gaguejou.
A Oráculo suspirou como se ele fosse um aluno particularmente obtuso. “Ninguém se lembra, querido. Mas um acordo é um acordo.”
Ergueu o crânio que carregava, cujas órbitas iluminadas de verde se fixaram nos olhos dele. O osso rachado pulsava, sussurrando algo numa língua que Edwin nunca ouvira, mas de algum modo compreendia.
Entregue.
Algo apertou seu peito. “Escute, acho que houve um engano. Não faço acordos com…” Ele gesticulou vagamente para a figura brilhante e coberta de joias. “…entidades próximas da morte.”
A Oráculo sorriu. “Ah, mas fez.”
Ela ergueu a mão e, de repente, Edwin se lembrou.
Uma noite, anos antes. Um desejo desesperado sussurrado no escuro. Um favor impossível concedido.
“Você queria tempo”, murmurou ela, aproximando-se. “Implorou por ele. E eu fui bondosa.”
Edwin sentiu o peso de todas as horas roubadas o esmagar. “Aquilo foi… eu não…” Soltou o ar bruscamente. “Achei que fosse um sonho.”
“A maioria dos presentes parece assim.”
As sombras ao redor de seus pés apertaram o cerco. O crânio nas mãos dela reluzia com uma fome sinistra.
“Agora, seja um amor e devolva o que pegou emprestado.”
Edwin cerrou a mandíbula. “E se eu não devolver?”
O sorriso da Oráculo ficou afiado como navalha. Ela apontou para os retratos.
“Então você entra para a coleção.”
O pulso de Edwin trovejava nos ouvidos. Suas versões passadas o encaravam das paredes, presas no meio de uma expressão, congeladas no instante final de compreensão.
A Oráculo estendeu o crânio. “Uma transação indolor, prometo.”
Edwin hesitou. O ar crepitava com algo antigo, algo faminto. Ele podia correr — mas para onde? A porta estava trancada; as paredes, vivas com olhos vigilantes.
“Está bem”, murmurou, passando a mão pelo rosto. “Leve.”
Os dedos dela roçaram sua testa e então —
Escuridão.
Frio.
Uma sensação de se desfazer.
Quando Edwin abriu os olhos, estava em outro lugar.
O grande salão havia desaparecido. A Oráculo havia desaparecido.
Em vez disso, estava dentro de um retrato, olhando para uma nova figura no lugar em que antes estivera.
Uma jovem aterrorizada segurava um convite tremeluzente com as mãos trêmulas.
Ela ergueu o olhar, fixando-o no dele.
Edwin tentou gritar um aviso.
Mas a tinta não deixou.
E então a voz da Oráculo dos Ossos encheu a sala mais uma vez.
“Você foi escolhida.”
Tenha um pedaço do legado da Oráculo
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- Quebra-cabeça – Monte os segredos da Oráculo… se tiver coragem.
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De um jeito ou de outro, a Oráculo dos Ossos sempre encontra uma maneira de ficar com você. Vai convidá-la para seu mundo?

The Snail Who Looked Twice at Trouble
The Gnome Who Swore the Mushroom Was Listening
The Seedpod That Fired Before Anyone Was Ready