O vento uivava sobre o mar revolto, varrendo os penhascos serrilhados e lançando ondas contra as rochas. Acima da imensidão tempestuosa, uma dúzia de asas poderosas cortava o céu, seus donos envolvidos numa disputa mortal e ancestral.
Era a Grande Caçada, uma competição realizada a cada década entre os predadores mais temíveis do céu — as águias-de-cabeça-branca do Pico do Trovão. As regras eram simples: a águia que capturasse o maior peixe conquistaria o título de Caçador Supremo, uma posição de domínio, respeito e — o mais importante — o direito de escolher os melhores locais de nidificação. Num mundo em que força significava sobrevivência, aquilo não era mera brincadeira.
E ninguém tinha mais fome de vitória do que Varek.
A disputa começa
Varek lutara por anos para conquistar seu lugar naquela competição, superando rivais, resistindo a invernos rigorosos e aperfeiçoando suas habilidades de caça. Suas asas tinham quase dois metros e meio de envergadura, cada pena marcada por incontáveis batalhas contra vento, chuva e garras rivais. Seus olhos, afiados como obsidiana, examinavam as águas caóticas lá embaixo, procurando um peixe digno da lenda que pretendia se tornar.
Abaixo, as ondas fervilhavam de vida — cardumes de arenques cintilantes, salmões esguios passando entre as cristas e trutas enormes à espreita nas profundezas. Mas Varek precisava de algo extraordinário. Algo que fizesse seu nome ecoar por gerações.
De repente, o ar vibrou com os gritos agudos de seus competidores. Garak, o Quebra-Ossos, veterano de três disputas anteriores, já mergulhava, garras estendidas e olhos fixos num salmão prateado que se debatia. Num movimento veloz, Garak fisgou o peixe entre as ondas e o ergueu rumo ao céu, o peso mal retardando sua subida.
“Boa tentativa, velhote”, murmurou Varek. “Mas preciso de algo maior.”
Ele não era o único observando. Bem acima, pousados na borda do penhasco, os anciãos acompanhavam a caçada com vivo interesse. Um deles em particular —Ironbeak, o atual Caçador Supremo — soltou uma risada rouca. “Vamos ver se o novato tem o que é preciso.”
A fera nas profundezas
Varek fez uma curva brusca, inclinando-se numa descida íngreme. Deixou o vento guiá-lo, sentindo a energia da tempestade carregar o ar. Abaixo, a água se agitava violentamente, de um jeito quase antinatural. Algo enorme se movia sob a superfície.
Seus instintos gritavam. Aquilo era o que procurava. Aquilo era seu prêmio.
Com um impulso poderoso, recolheu as asas e mergulhou.
O mundo se tornou um borrão enquanto ele rasgava o céu, com o vento rugindo nos ouvidos. A água correu ao seu encontro e então veio oimpacto. Ele afundou sob a superfície, estendendo as garras, tateando…
Até que elas atingiram algo semelhante a aço.
As garras de Varek se cravaram na couraça espessa do maior peixe que ele já vira. Não era uma truta. Nem sequer um salmão. Era um monstro. Um esturjão-lacustre do tamanho de um lobo, com placas ósseas pré-históricas cobrindo as costas e uma boca como um abismo escancarado.
A criatura explodiu num frenesi de movimentos, arrastando Varek para baixo.
A luta pela sobrevivência
Seus pulmões ardiam enquanto a água gelada o puxava mais fundo. A fera se debatia, golpeando-o com a imensa cauda como um aríete. Mas Varek se recusava a soltar. Aquele era seu prêmio.
As asas, pesadas de água, lutavam para bater contra a pressão esmagadora da profundidade. Ele ouvia os gritos abafados dos competidores acima. Não mergulhavam para ajudar. Esperavam para ver se ele morreria.
Num último esforço desesperado, Varek liberou toda a força do corpo. As garras penetraram mais fundo, perfurando a carne protegida do peixe. Sangue se misturou à água salgada, formando um halo carmesim ao redor deles. O esturjão se contorceu, mas Varek girou junto com ele, usando sua própria força contra ele.
Então — luz.
Varek rompeu a superfície numa explosão de água, e suas asas capturaram o vento. O esturjão, ainda preso às garras, se debatia violentamente, mas era tarde demais.
Com um grito vitorioso, Varek ergueu o peixe.
Vitória e lendas
O silêncio tomou os penhascos enquanto Varek subia, com o prêmio pendurado abaixo. O tamanho do peixe era inegável — fazia até o salmão de Garak parecer pequeno. Não havia comparação.
Ironbeak, observando de cima, assentiu lentamente em aprovação. “Mas que diabos”, murmurou. “O garoto conseguiu mesmo.”
As outras águias, uma a uma, soltaram gritos de reconhecimento. Garak, sempre um guerreiro orgulhoso, voou ao lado de Varek e fez um breve aceno. “Respeito”, disse com voz áspera. “Mas, na próxima, fico com esse título.”
Varek soltou uma risada sem fôlego. “Vai ter que arrancá-lo das minhas garras, velhote.”
Enquanto a tempestade rugia e o mar se chocava lá embaixo, nascia uma nova lenda — a história de Varek, o caçador que desafiou as profundezas e venceu as marés. E, em algum lugar naquelas águas em turbilhão, os ancestrais do grande esturjão espreitavam, à espera do dia em que outra águia ousasse desafiar o abismo.
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The Snail Who Looked Twice at Trouble
The Gnome Who Swore the Mushroom Was Listening
The Seedpod That Fired Before Anyone Was Ready