Fiona Frost não era um espírito de inverno qualquer. Não: era o tipo de encrenqueira capaz de arruinar um concurso de anjos de neve com uma única bola de neve certeira — ou, como ela chamava, uma “intervenção criativa”. E naquele dia, enquanto a neve cintilava e o vento gelado sussurrava pela floresta congelada, Fiona estava sentada na neve com um ar convencido, as meias listradas enfiadas nas botas, planejando sua próxima dose de caos.
“Argh, este lugar está morto”, resmungou, girando um graveto congelado entre os dedos. Suas maria-chiquinhas de duas cores — rosa de um lado, azul do outro — estavam salpicadas de flocos de neve, mas ela não se importava. “Os bichos da floresta estão hibernando, os humanos estão tentando não congelar e os bonecos de neve? Nem me faça começar a falar daqueles montes de gelo preguiçosos. O que uma garota tem que fazer para se divertir por aqui?”
Um piado chamou sua atenção. Num galho próximo havia um passarinho, tremendo de frio. Seus olhos arregalados se moviam nervosamente, sem dúvida percebendo que estava diante de uma encrenca. Fiona deu um sorrisinho, seus lábios pintados se curvando com malícia. “Ah, não me olhe assim”, disse, levando a mão ao coração, o emblema vermelho costurado no espartilho parecendo quase sincero. “Eu não mexo com passarinhos… geralmente.”
O passarinho inclinou a cabeça. Fiona inclinou a sua de volta, imitando-o. “Vai, então. Voe antes que eu resolva transformar você num enfeite.” O pássaro piou mais uma vez e disparou, deixando Fiona sozinha novamente. Ela suspirou dramaticamente, caiu de costas na neve e olhou para o céu. “As coisas que faço para me entreter. Talvez eu devesse criar um TikTok de pegadinhas de inverno… ah, espera, não tem Wi-Fi no mato. Típico.” Seus pensamentos foram interrompidos pelo som de neve sendo pisada. Alguém — ou alguma coisa — se aproximava. Fiona se sentou, estreitando os olhos de cores diferentes. “Ora, ora, o que temos aqui?”, sussurrou, tirando a neve das mangas com acabamento de renda.
Um homem saiu cambaleando de entre as árvores, envolto numa parca ridiculamente grande, o tipo de roupa que gritava “eu não pertenço a este lugar”. Suas botas estavam cobertas de neve, e seu rosto se escondia sob camadas de cachecóis. Fiona não conseguiu segurar a risadinha. “Turista”, murmurou, levantando-se. “Isso vai ser divertido.” O homem não a percebeu de início, ocupado demais se atrapalhando com um mapa. Um mapa. Em 2024. Fiona quase não aguentou. “Com licença!”, chamou, acenando com a mão enluvada. O homem ergueu os olhos, assustado, e cambaleou para trás. “Nossa! Você… você me assustou!”
Fiona ergueu uma sobrancelha. “Você está no meio do mato, numa nevasca, e não esperava encontrar ninguém? Escolha ousada.” O homem hesitou, a respiração formando vapor no ar frio. “Eu… acho que estou perdido.” “Percebe-se”, disse Fiona, cruzando os braços. “O que entregou? Você estar vestido como um saco de dormir com vida própria ou esse mapa mais velho que você?” O homem franziu a testa. “Olha, não preciso da sua arrogância. Só preciso de uma direção.” Fiona soltou um suspiro teatral, levando a mão ao coração. “Ah, querido, não é arrogância. É só a minha personalidade encantadora.”
O homem gemeu, enfiando o mapa no bolso. “Está bem. Pode me ajudar ou não?” Fiona fingiu pensar, batucando o dedo nos lábios. “Hum… eu poderia ajudar. Mas qual seria a graça?” “Graça?”, repetiu o homem, exasperado. “Estou congelando aqui! Isto não é um jogo!” “Não é mesmo?”, respondeu Fiona, abrindo ainda mais o sorriso. “A vida é um jogo, querido, e quem faz as regras sou eu.”
Antes que o homem pudesse protestar, Fiona estalou os dedos. Uma rajada de vento gelado rodopiou ao redor dele, tirando-o do chão e fazendo-o girar em círculos. Seus gritos abafados quase desapareceram sob as gargalhadas de Fiona. Quando o vento finalmente o colocou no chão, ele estava sentado num círculo perfeito de neve intocada, com a parca agora coberta de glitter. Fiona bateu palmas, encantada. “Ah, assim está muito melhor. Você está fabuloso, querido!” O homem gaguejou, tirando o glitter das mangas. “Mas que… o que você fez?!”
“Relaxa, calça brilhante”, disse Fiona, dispensando a preocupação com um aceno. “Você está bem. Só precisava de uma repaginada.” “Você é maluca”, resmungou ele, levantando-se. “Vou embora.” “Boa sorte!”, gritou Fiona atrás dele. “Espero que goste de andar em círculos!” Ele parou, encarando-a com raiva. “O que isso quer dizer?” Fiona deu um sorriso malicioso, os olhos cintilando de travessura. “Ah, não mencionei? Esta floresta é encantada. Sem a minha ajuda, você não vai a lugar nenhum.” O homem gemeu, erguendo as mãos, frustrado. “Está bem! O que você quer?”
“Hum…” Fiona tocou o queixo, pensativa. “Que tal… um elogio?” “Um elogio?” “Isso”, disse ela, enrolando uma mecha de cabelo no dedo. “Diga que sou fabulosa e talvez eu deixe você ir.” O homem a encarou, com o maxilar contraído. Finalmente, suspirou. “Está bem. Você é… fabulosa.” Fiona abriu um sorriso radiante. “Ora, obrigada! Viu? Não foi tão difícil, foi?” Ela estalou os dedos de novo, e as árvores pareceram se afastar, revelando um caminho livre. “Pronto. Boa viagem, calça brilhante!” O homem não ficou para fazer perguntas. Apressou-se pela trilha, resmungando baixinho. Fiona o observou partir com um sorriso satisfeito. “Humanos”, disse, balançando a cabeça. “Tão fáceis de provocar.”
Ela se deixou cair sentada na neve outra vez, cruzando as pernas e olhando para o céu. “Agora, quem será o próximo?”, perguntou em voz alta, abrindo ainda mais o sorriso. O inverno era seu parque de diversões, e ela ainda não tinha terminado de brincar.
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