Os picos congelados se erguiam adiante, suas agulhas irregulares arranhando o céu. As botas de Mara faziam a neve intocada ranger, cada passo um sussurro no silêncio da natureza, solene como uma catedral. Ela não deveria estar ali — ninguém deveria. Os moradores do povoado lá embaixo diziam que a montanha era proibida, um santuário do ancestral, onde o mundo dos homens não tinha lugar. Mas os sussurros dos picos a chamavam, puxando as bordas puídas de sua alma.
Fazia um ano que seu irmão, Erik, desaparecera naquelas montanhas. Diziam que ele havia enlouquecido, perseguindo a lenda do espírito do lobo, uma criatura que não estava viva nem morta. Os anciãos alertavam que buscar o lobo era perder a si mesmo, mas Mara não podia permitir que a ausência de Erik se tornasse apenas mais uma história de fantasmas. Precisava saber a verdade, custasse o que custasse.
A nevasca cessara horas antes, deixando o mundo envolto em um silêncio sepulcral. Conforme subia, a trilha se estreitava e o ar ficava mais rarefeito. Sombras compridas atravessavam a neve, e o sol agonizante banhava os picos em um brilho irreal de ouro e prata. Ela parou para recuperar o fôlego, examinando o horizonte. Foi então que viu: um símbolo entalhado na casca de uma árvore coberta de geada. Era tênue, mas inconfundível: um sigilo espiralado que Erik havia gravado na madeira, um sinal deixado para ela.
Seus dedos enluvados roçaram a marca. “Você esteve aqui”, sussurrou, com a voz trêmula. O vento pareceu responder, seu uivo se elevando como um canto fúnebre. Ela prosseguiu, sentindo o peso das montanhas sobre si, até chegar à borda de um vale congelado. Ali, sob a luz de uma lua pálida, ela o viu.
O lobo
Ele permanecia imóvel, uma figura colossal recortada contra a imensidão cristalina. Seu pelo cintilava como geada ao luar, e seus olhos — aqueles olhos — a atravessavam como estilhaços de fogo azul. Mara ficou paralisada, com a respiração presa na garganta. A criatura não se movia, mas sua presença preenchia o ar, opressiva e incontestável. Ela sentiu os joelhos fraquejarem, o peso daquele olhar obrigando-a a se ajoelhar. Viera em busca de respostas, mas naquele instante sentia que era ela quem estava sendo desnudada.
“Por que veio?” A voz não foi ouvida, mas sentida, ressoando no fundo de seu peito. Mara virou a cabeça bruscamente, mas não havia mais ninguém ali. O olhar do lobo a penetrava, e ela percebeu que a voz não vinha de fora — estava dentro de sua mente.
“Estou procurando meu irmão”, gaguejou, com a voz falhando. “Erik. Ele desapareceu nestas montanhas.”
Os olhos do lobo se estreitaram, e por um instante o mundo pareceu se inclinar. O ar ficou mais frio e as sombras se adensaram quando o espírito se aproximou, suas enormes patas sem produzir som algum na neve. “Erik veio em busca de algo que não era capaz de compreender. Assim como você.”
A prova
O lobo caminhou lentamente ao redor dela, sua presença ao mesmo tempo majestosa e aterradora. “Para encontrá-lo, você precisa enfrentar a verdade que esconde”, disse. “A verdade que o trouxe até aqui.”
Mara balançou a cabeça. “Não entendo. Só quero levá-lo para casa.”
O lobo parou, cravando seus olhos glaciais nos dela. “Você o procura não por amor, mas por culpa”, disse, e as palavras a atingiram como um golpe. Lembranças inundaram sua mente: o último pedido de Erik para que fosse com ele, sua recusa, a briga que o afastara. Ela lhe dissera que ele perseguia contos de fadas, que estava fugindo da realidade. E, no entanto, ali estava ela, seguindo o mesmo caminho, movida pela mesma necessidade de escapar.
“Eu… eu estava errada”, sussurrou, enquanto as lágrimas congelavam em suas faces. “Devia ter acreditado nele.”
O lobo inclinou a cabeça, como se pesasse suas palavras. “Você teme aquilo que não pode controlar. O desconhecido a apavora, mas é o único caminho adiante. Se deseja encontrá-lo, precisa se entregar a ele.”
A travessia
Antes que Mara pudesse responder, o lobo se virou e começou a caminhar para a borda do vale, onde uma ponte estreita e escorregadia de gelo atravessava um abismo. Ele parou e olhou para trás. “Siga-me, se tiver coragem.”
Mara hesitou, com o coração disparado. A ponte parecia incrivelmente frágil, um fio suspenso sobre um vazio sem fundo. Mas o olhar do lobo a sustentava, firme e inflexível. Ela pisou no gelo, os pés escorregando enquanto se agarrava ao corrimão de corda coberta de geada. O vento uivava ao redor, ameaçando arrastá-la para o abismo, mas ela se obrigou a avançar, um passo angustiante de cada vez.
Quando chegou ao outro lado, o lobo a esperava. A paisagem havia mudado: os pinheiros familiares e os picos recortados tinham desaparecido. Em seu lugar, uma floresta etérea se estendia diante dela, suas árvores cintilando com uma luz que parecia vir de dentro. O ar era mais quente, e a neve sob seus pés, macia e luminosa. No centro da clareira havia uma figura.
A verdade
Era Erik. Ou melhor, o que restava dele. Seu corpo era translúcido como vidro, e seus olhos ardiam com o mesmo fogo azul dos olhos do lobo. Ele sorriu, numa expressão triste e compreensiva. “Mara”, disse, com a voz ecoando suavemente. “Você veio.”
Ela correu até ele, mas, quando tentou segurar suas mãos, as dela o atravessaram como névoa. “Erik!”, gritou. “O que aconteceu com você?”
“Encontrei a verdade”, disse ele, simplesmente. “E ela me libertou. Mas a liberdade tem um preço.”
O lobo surgiu ao lado dele, sua figura imensa se elevando acima dos dois. “Ele pertence a este lugar agora”, disse. “Assim como você pertencerá, se escolher ficar.”
Mara olhou para Erik, com o coração partido. Percorrera todo aquele caminho apenas para descobrir que seu irmão já não podia ser salvo. Mas, ao olhar em seus olhos, viu algo que não esperava: paz. Ele não estava perdido; havia encontrado algo maior do que si mesmo. E agora ela precisava fazer uma escolha.
A escolha
“Você pode voltar”, disse o lobo, agora com a voz mais suave. “Ou pode ficar. Mas saiba disto: ficar significa abrir mão de tudo o que você foi e de tudo o que teme perder.”
Mara fechou os olhos, esmagada pelo peso da decisão. Pensou na vida que deixara para trás, no vazio que a trouxera até ali. E então pensou em Erik, diante dela, inteiro de uma forma que nunca estivera antes.
Quando abriu os olhos, o lobo a observava, com um olhar indecifrável. “Não tenho mais medo”, disse, com a voz firme.
O lobo assentiu. “Então você está pronta.”
A luz da floresta ficou mais intensa, envolvendo os dois. Por um instante, não houve nada além do som do vento e das batidas de seu coração. E então, silêncio.
Nos anos seguintes, quando os moradores do povoado falavam dos picos, sussurravam sobre duas figuras que percorriam as alturas: uma mulher e um lobo, com olhos que brilhavam como fogo na noite congelada. E aqueles que se aventuravam longe demais nas montanhas juravam ouvir a voz dela no vento, chamando-os a enfrentar as verdades que carregavam dentro de si.
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The Snail Who Looked Twice at Trouble
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